taquicardia
Eu estou com medo. Estou apavorada, para dizer a verdade. Meu coração disparou há alguns minutos, taquicardia, minhas mãos estão geladas e trêmulas. Eu não consigo pensar direito, não consigo raciocinar, não consigo, não consigo... Estou numa paranóia frenética. Já senti isso antes. Algumas vezes, muitas vezes.
O coração encaixotado, esmagado por concreto... Meto as mãos por dentro da blusa e arrasto com dedos e unhas tudo o que possa estar causando essa sensação de opressão. Arranco pele e carne. Ardem um pouco, arranhões, ardem e sangram...Mas não adiantam. Talvez se fossem mais profundos... Mas não tenho forças, e nem coragem, para desencaixotá-lo do meu peito: remover músculos e ossos. Também, sei que não adiantaria, não é físico o que eu sinto, Olho pra trás e pros lados, paranóia, paranóia. A taquicardia continua... Mãos trêmulas, nem consigo escrever direito. Sinto que vou ser apunhalada a qualquer momento. Vou, numa esquiva às avessas, de encontro ao punhal. Quero sentir a doce dor do ferro frio me cortando a carne e adentrando meus músculos e órgãos. Sentir o jorro quente do meu próprio sangue derramado.Morrer devagar...
Não, a morte não me assusta...
Ainda taquicardia... Mas não é verdade. É tudo alucinação, paranóia... Paranóia.
Preciso de remédios e comprimidos, antidepressivos...
O mundo paralelo parece tão mais real.
" Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!"
Fernando Pessoa 7-11-1933




0 Comments:
Postar um comentário
<< Home