segunda-feira, maio 21, 2007

O dia em que eu morri

Hoje... hoje é o dia em que eu morri.

Calma não se assustem.Eu já havia tomado essa decisão havia algum tempo. na realidade, armei todo o enredo de minha própria morte. Eu me assassinei. O motivo? Simples: Eu amava demais a vida. Era muito apegada a ela.

Talvez vocês não entendam... mas é que o medo da morte me angustiava demais! Tanto que eu não podia mais agüentar. A cada sorriso que eu dava, a cada suspiro, o amor pela vida se apoderava de mim... e o pavor da morte crescia. Só havia uma forma de me ver livre daquela angústia toda:eu tinha que me assassinar.

Foi um crime premeditado. Assim: não cheguei realmente a refletir sobre o que estava fazendo . Só queria me ver livre daquele medo que a morte me dava. Só que eu me conheço muito bem, acabaria voltando atrás na última hora, então teria que deixar a coisa muito bem amarrada. Eu teria que me por numa situação onde ficasse impossível de voltar atrás.

É que eu sabia que quando chegasse na hora de morrer eu ia querer voltar atrás. Tinha que deixar a vida sem opções de me salvar. Não, nada de cortar os pulsos e correr o risco de que alguém me salvasse de última hora. Não, nada de pílulas para dormir, lavagem gástrica ainda por cima deve ser horrível...Já tinha chegado a uma decisão.Iria saltar lá de cima do farol. Cairia sobre as pedras e meu corpo ficaria perdido no mar. Uma fórmula sem saída. Depois de dado o estopim as conseqüências se desenrolariam...

Sempre soube que a vida podia continuar sem mim , embora eu nada pudesse sem a vida. E apesar de ela, a vida, nem sempre me tratar com delicadeza eu amava tudo nela... até mesmo aquele detalhezinho da orelha grudada que no início eu antipatizava. E mesmo conhecendo cada detalhe da vida até mesmo aquele sinal às costas dela... aquele que invadia os meus sonhos... ela sempre encontrava algo novo pra me surpreender. Sempre tinha algo novo.

E acho que , no fundo, eu esperava que a vida me surpreendesse de novo, que algum milagre acontecesse... que a vida não me deixasse ir.

O ar tinha o gosto das lágrimas que eu ainda derramaria por muito tempo... Lá de cima o mundo parecia magnífico. E a vida ainda mais deslumbrante. Nessa hora a olhei nos olhos e saltei...pois bem: "chutei o pau da barraca" e a queda me pareceu infinitamente demorada... uma eternidade. O arrependimento veio logo, antes mesmo de eu ter certeza que iria acabar me espatifando lá em baixo. Pedi a perdão a Deus pelo meu ato e fiquei esperando algum tipo de intervenção divina... pedi que um milagre me tirasse dali...me entregasse de volta aos braços da vida. Mas nada aconteceu.

O medo pelo menos tinha ido embora. Ao que parecia... tinha deixado de me assombrar, não me espreitava mais. Agora não adiantava de nada sentir medo (se é que o medo tinha adiantado de alguma coisa alguma vez). Tentei pensar no lado bom daquilo tudo; eu estava livre: o medo tinha ido embora! Mas foi só eu pensar nisso que uma caixa fechou-se ao meu redor. Uma densa caixa de madeira e comecei a me sentir sufocada. Só aí me dei conta que o meu medo se materializara ao meu redor.

E quando eu me espatifei lá embaixo nas pedras, enquanto sentia meus ossos estalando e meu corpo se deformando... enquanto a vida me deixava sem dar muitas explicações a caixa continuou lá inteira. Meu corpo sem vida, guardado dentro daquela caixa maciça de madeira e descobri uma coisa: depois da morte, pelo menos para nós suicidas, há dor. Muita dor.

Acho que deixei de ser gente depois que morri. Deixei de ser gente e virei dor.