fagulhas
Ela, menina... não pôde deixar de perceber a presença dele aquele dia. E em meio a tantas cores, em meio a tanta gente. Uma faísca acendeu em seus olhos naquele dia.
Ele, homem feito, não percebeu a presença dela alí. Não em meio a tantas cores, em meio a tantos rostos... não ainda.
A tal faísca manteve-se assim quieta simplesmente brilhando enquanto ela o ouvia falar . Enquanto se saciava daquelas palavras, e embora ela quisesse existir no mundo dele, teve medo.
Ele parecia tão real aos olhos dela, tão incrivelmente real... que ela tinha medo de não ser real o suficiente para entrar naquele mundo. De que acaso se atrevesse a dar um passo naquela direção tudo em si se diluiria. Corpo, voz, alma, olhos e ficasse de si só aquela faísca.
Mas ele a percebeu, algum tempo depois, ele a percebeu. Percebeu, antes dela, a faísca em seus olhos. Aquela faísca curiosa que pulsava e parecia um reflexo dele. Achou curioso que aquela menina tivesse nos olhos algo de si.
A faísca nos olhos da menina dançavam uma dança curiosa e ele se aproximou na esperança de ser tirado para dançar, de ser acolhido e compreendido. E houve muito tempo, e houve muita história. Até o dia em que a faísca transformou-se em fagulha nos olhos da menina.
O homem começou a parecer real, teve coragem de psst! segredo: Assumir suas falhas. O homem, foi além mostrou-se inteiro, despiu a alma e desvelou-se... menino! Menino cheio de medos, menino...
Para estar alí presente, a menina decidiu tornar-se mulher. Para cuidar do menino lindo que acendera uma luz no seus olhos. Para amar e cuidar...
E numa noite pouco depois da noite de São João, uma noite chuvosa... O menino e a mulher, a menina e o homem... todos se abraçaram e quase em sonho deixaram seus lábios se tocar... assim... se tocar... de uma forma tão sutil que qualquer palavra, qualquer ruído... seria capaz de desfazer aquele momento.
Depois daquele momento a fagulha se descontrolou dentro de menina-mulher e por muitas vezes ao longo de anos transformou-se em fogo em incêndio, em agonia... queimando a tudo e a todos ao seu redor, principalmente ele. E ela sentindo-se responsável por aquilo, ao longo desses anos derramava oceanos de lágrimas para apagar o fogo que a consumia.
Mas embora as chamas se apagassem , o fogo se extinguisse... sempre restava a fagulha. A fagulha nunca apagou. Essa fagulha tão denunciadora da menina, denunciadora da mulher...
O homem fez correr rios de lágrima pela face da menina , na esperança de apagar aquela fagulha. O menino fechou os olhos para não mais enxergar a fagulha nos olhos da mulher.Mas a fagulha já estava dentro dele embora o homem não quisesse admitir e o menino não percebesse.
A fagulha não se apagaria mais em nenhum dos dois. A fagulha cristalizou-se estrela nos olhos dela. E às vezes ela achava que podia ver o reflexo daquela estrela nos olhos dele também




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