segunda-feira, maio 21, 2007

Dogville

Então é hoje.

O fatídico dia. Não. Nada mais adianta. Não surtiu efeito algum apegar-se aos raros bons momentos, que às vezes subiam como bolhas de ar naquele mar de tensão onde estávamos mergulhados. Tentei multiplicar os nossos sorrisos, somar com os gozos elevar tudo isso à cumplicidade que havíamos criado. Ou que, pelo menos eu achava, havíamos criado.

O fatídico dia. Nada disso adianta. Não adianta por que você não assistiu Dog Ville e nunca vai assistir. É por demais patético e entediante. Você não sabe o que é se perder diante das coisas. Você não gosta de nada patético e entediante. E eu sou por demais patética e entediante.

Não sei me afogar na minha dor, finjo mal. Não sei me revoltar e explodir em coragem. Não sei sentir raiva. A verdade é essa, e sei que você não acredita como não acredita em uma porção de outras coisas. Mas eu realmente não sei sentir raiva. Tenho preguiça. Perdoar é mais fácil, mais rápido, entender, evitar atritos. Por isso não gosto de brigas. Nem de disse-me-disse. Por pura preguiça. Não, não é por superioridade... é por preguiça.

Talvez por isso tenha me apegado tanto a você. E por tanto tempo. Já tínhamos uma intimidade um ritmo, e construir tudo de novo ... dava preguiça.

Eu realmente gostava de você , mas o principal motivo era a preguiça. Preguiça de acreditar que você me subestimou por tanto tempo. Ao invés de tirar algumas histórias a limpo. Como hoje eu sei por pessoas que não deveriam saber de nada. Principalmente, se a descuidada com a história era eu.

Preguiça de acreditar, que a minha ingenuidade fosse ter um preço tão alto e tanto enfrentamento depois. Preguiça de acreditar que você usava algumas mentiras deslavadas para conseguir o que queria, ainda não tenho raiva. Preguiça de acreditar que esse passado vai me perseguir e as verdades vão aparecer com o passar dos anos. Preguiça de acreditar que as pessoas são realmente tão maldosas e não compreensivas como eu gostaria, como eu me esforço para ser.

Um dia, e não há de estar longe esse dia. Por mais que doa em mim eu vou acabar com esses cães travestidos de gente. Até lá ficarei eu no canil, roendo os restos que me jogam à noite."

um instante

e foi apenas um instante: os olhos estavam voltados para a direçao certa, o corpo numa tensão incomum...
A boca quieta, lábios ligeiramente entreabertos.
Foi apenas um instante. Mas foi aquele o instante exato. Numa fração de segundos. Os olhos se encontraram... era o instante correto. Ela pôde visualizar o que aconteceria em seguidae ficou paralizada. Ele, por outro lado foi além. Chegou mais perto e tocou suas mãos... Não disseram nada... ficaram alí quietos por um segundo ou dois. Olhando-se intensamente. Não disseram nada... e nem havia o que dizer. Naquele instante souberam que suas almas eram intimas demais pra precisar de palavras.
Qualquer palavra seria tolamente redundante.

tudo perdido

Não sei exatamente como dizer isso aqui. Queria escrever algo lindo. Uma poesia... ou um conto... Alguma coisa louca e doce, o tipo de coisa tão correta e tão cheia daquele sentimento, ao mesmo tempo humano e divino, chamado esperança. Gostaria de conseguir mostrar a vocês os sentimentos que tem me inundado. Algo calmo e sublime como o amanhã que eu sempre desejei. Só que hoje. Enfim o amanhã chegando... se reencontrando com o que gostaríamos de consertar e abrindo pela nossa frente, bem debaixo de nossos narizes um caminho lindo e repleto de possibilidades. Algo que só é possível depois que se perde o medo.

Olhou para frente.
Sentia-se só, inseguro, frustrado...
Foi só então que percebeu: perdera tudo...
até o medo!

carta a renata

Mas, amiga, a razão teima em fugir não é? E essas lágrimas já não dissolvem tantos sentimentos. Mais fácil seria afogar-se nelas.

E o sentido pulsa alheio, sem hora pra dormir, sem hora pra trabalho... sem pausa pra descanso. O sentido é frenético, incansável sempre desejoso de mais.

Mais um sorriso, mais um copo, mais uma dança. Mais, mais, mais...

Inda assim, essa é a sensação mais curiosa que já senti. Acho que foi quando realmente descobri a vida, e a efemeridade do prazer.

Hoje, eu me sinto cansada. Cansada como alguém que carrega o fardo dos anos sobre os ombros, e o irônico é que eu sou tão jovem.

Eu, já nem quero mais tal razão, embora também não suporte ouvir conselhos (sábios conselhos)... preciso é de compreensão (mais minha que outra qualquer).

E de inocência... Mas não a inocência do bobo ignorante, da criança inconseqüente essa é uma inocência muito fácil e muito frágil.

Preciso da inocência e da serenidade só possível àqueles que já passaram por tudo e já perdoaram de tudo.

Uma inocência só possível àqueles que amam e têm fé.

estranho

Daqui do alto eu posso ver bênçãos derramadas.

Sentir um cheiro bom de flores do campo,

Daqui do alto eu posso ver beleza demais...

Tanta Que meus olhos, desacostumados,

Ameaçam cegar diante dela.

Estranho...

Realmente estranho

Estranho porque entre tantas bênçãos

que nos cercam

insistimos em virar os olhos para dentro e para trás

num ritual autista,

masoquista...

e culpamos quem está por perto,

sádicos que somos.

Estranho sim.

Estranho porque entre belezas,

Talentos, carinhos.

E amizades tantas nos fechamos em suplício,

Em auto piedade num auto flagelo infinito...

num cansaço cômodo... Muito incômodo.

Estranho

porque sentimos o grito arranhando nossa garganta

mas o sufocamos por medo.

Nos acostumamos tanto com nossa dor

Com a nossa auto-culpa

e não nos permitimos o novo; o bom...

e ficamos apodrecendo

junto com o nosso passado.

E magoamos pouca gente que significa muito.

Estranho

Porque temos medo

Medo mesmo de sermos felizes

e ficamos remoendo mágoas,

e remexendo feridas

Ainda expostas demais por nossa teimosia

(medo de deixar cicatrizar. e com isso esquecer)

E estranho ,

Finalmente, estranho porque

Justo nós temos a consciência de que

Com um pouco mais de fé

Moveremos as montanhas interiores

Que nos impedem de ver o mar

e ouvir a nossa voz no grito do infinito

Com apenas um pouquinho mais de fé.

susto

Abri os olhos de repente. o quarto muito escuro,você prefere assim...

minha respiração ofegante...

Assustada, muito assustada. Estiquei o braço na cama,você se remexeu um pouco. Dormia pesado, ressonava...tão tranqüilo.

Fui me acalmando na tua calma,me acheguei, devagar,junto ao teu peito para sentir o teu cheiro.Fiquei quietinha: não queria te acordar...

Aos poucos o som de tua respiração foi me ninando, me ninando...dormi sem lembrar direito porque tinha acordado.

Acordei noutro sobressalto...cama fria! Ofegante. Que coisa estranha...

Uma luz pálida entrava pela janela do meu quarto.Te sentia tão próximo.

Não tive coragem de esticar o braço. Sabia que você não estaria lá.

Fechei os olhos com força e mesmo assim pude te ver. Em pé, de frente pra espelho de corpo inteiro, que fica ao lado da janela, vestindo a camisa. E no silêncio assustador que fazia no meu quarto ouvi a tua voz

- É melhor não. Eu não ia dormir bem... teu quarto é muito claro, e você sabe como fico quando não durmo bem.

Calo.

Sozinha no quarto. Suspiro e reviro na cama, sem tua respiração pra me ninar...

Tomo uma decisão: preciso comprar persianas!

oração de fé

Um gesto firme e tranqüilo,

Um sorriso sereno quase infantil,

Voz forte e terna.

Um pouco de fé.

Alguma cultura.

Alegria aos borbotões!

Algo de divino,

Algo de profano.

Medos alguns...

E uma chama ardendo nos olhos.

AMÉM!

acontecimento

Meus dedos passeiam sobre teus pêlos eriçados...

Sobe um cheiro de sussurros ao pé da orelha...

um cheirinho bom de beijo na boca...

Minha boca saliva em busca do abraço morno que adivinho em teus olhos

E sorvo cada gota dessa noite ...

Acordo desse sonho assim,

com um gostinho de desejo satisfeito na boca!

quando

...mas quando ouço um suspiro teu,

quando sinto o teu cheiro (tão meu) ...

Ah! quando corro meus dedos sobre tua pele, teus pêlos e sinto essa textura tão tua...

Quando reconheço um murmúrio teu e me aproximo um pouco mais pra ouvir tuas palavras e banhar-me em teu hálito... Mas quase nunca consigo ouvir tuas palavras... sinto-as reverberando dentro de mim, ecoando, ecoando...

se

...se ao menos teus olhos se voltassem para os meus.

E se teus dedos percorressem meus recantos...

Se tua língua procurasse a minha língua e tua voz ressoasse em minh'alma...

Se as tuas mãos desalinhassem meus cabelos...

Se ao menos reconhecesse o meu cheiro e cravasse teus dentes em minha carne macia...

momentum

Não, nem mais um dia eu posso esperar!

Se eu não for hoje, se eu não fizer o que tenho pra fazer então nunca mais hei de fazer.

O momentum lateja em minhas têmporas, em meu peito, em minh'alma... o momentum... é isso. É esse!

Depois de enfrentar lances e mais lances de escada e de alcançar o topo eu respiro, olho a paisagem...

Sem delongas, sem demoras me atiro lá de cima do edifício do meu "eu" e despenco em queda livre sobre a tua vida.

Plena em mim

...e se acaso me vires caminhando sob o sol, com um sorriso bobo no rosto cabelos desgrenhados pelo vento quero que saibas que foi bom. Foi muito bom ter conhecido você e ter me perdido e me reencontrado em você (por você).

E se acaso eu olhar para trás saiba que é apenas pela sensação da lembrança boa. Não pretendo voltar ao ponto onde te achei e me perdi de mim.

Irônico não? Agora que não sei quem sou nem para onde vou é que sou plena em mim.

boas lembranças

- ...

- Ei...

-Oi, diga...

- Bem que você podia me emprestar um pedacinho da tua cama hoje...

-Um pedacinho da minha cama é?

- É... amanhã eu devolvo...

projeção

Te procurava já há três dias... a saudade, fazia o meu corpo tilitar de frio, por fora e por dentro. As noites estavam se tornando longas e vazias, você fugindo de mim... se escondendo...

Mas você sabe como eu sou não é? Não desisto fácil...

Passei a noite de ontem te procurando, conseguia te ver de longe. Mas você saiu, parecia estar trabalhando. Ocupado demais. Te esperei lá onde tinha te visto, no térreo.Um salão imenso com algumas dezenas de pessoas, estávamos participando de uma confraternização com danças. E você sabe que eu não danço nada, acredite, eu entrei naquela de dançar só para te achar.

Era um prédio enorme, novo, lembrava um pouco o aeroporto recém construído, só que muito maior, mais alto e mais bonito... Mais claro, iluminado por uma luz natural gostosa, e com escadas rolantes por todos os lados. No térreo onde eu estava tinha uma espécie de arquibancada também.

Pois bem. Cansada de te esperar sentei lá na arquibancada, ansiosa... e alguém puxou conversa comigo. Eu disse a essa pessoa que estava te procurando...

”Ué mas eu o vi ainda nesse instante.”- nessa hora não tenho dúvidas de que os meus olhos brilharam, minhas costas encurvadas e minha postura abatida mudaram: fiquei alerta. A outra pessoa- não lembro se era homem ou mulher, apontou para cima uns 4 ou cinco andares e eu vi... vi você. Você me viu também, mas fingiu que não havia visto e saiu do alcance da minha visão.

Era a minha hora de dançar. Fiz a minha participação, e depois que encerrei me dirigi a uma das escadas rolantes.

A escada era muito alta, mas eu não sentia medo da altura.

Quando cheguei lá em cima te procurei e, mais uma vez , não estava te achando... o andar tinha um constante fluxo de pessoas... até que alguém me apontou você (não conheço essas pessoas ... anjos.)

Você havia trocado de roupas... estava mesmo fugindo de mim. Mas quando eu me aproximei você deu um sorriso. Estava trabalhando, parecia atender algumas pessoas. Esperei que você desocupasse um instante. E quando você desocupou me cumprimentou. Não consegui me conter e já me jogando por cima de você:

”Me dá um abraço que eu tô com saudades!”; você aquiesceu me deu um abraço... longo.

”Se eu não tenho sentido tantas saudades é porque ainda há muito de você dentro de mim!”- enrubesci com o seu comentário..Foi aí que me larguei do teu abraço.

”Não diz isso... “- olhei pro chão.

”...”

”...esse não diz isso foi um: por favor sempre diga isso!”- eu ri, você também. Estávamos descontraídos. Você deu um beijo na minha testa.

”depois a gente se vê e conversa com calma.”

Balancei a cabeça afirmativamente e fui em direção à escada rolante, fiquei olhando para trás, pra você... ainda sorrindo para mim.

lembranças

Deita aqui.

Fecha teus olhos devagar, sente a brisa fresca que invade o quarto e inunda todos os cantos de música e perfume. Deixa-se inundar também por essa brisa reconfortante.

Descansa. Descansa teu coração já combalido, pelas amarguras e rudezas da vida, esse teu coração sofrido e maltratado aqui juntinho do meu que ainda novo, embala-se esperançoso de ti ...

Dá-me a tua mão, que é, às vezes, tão áspera e repousa na minha inda macia... macia.

Abre os teus olhos para enxergar os meus, permite pelo menos dessa vez, que eu me veja refletida neles.

Deixa eu iluminar teu rosto com um sorriso e escrever na tua memória nossas lembranças.

fagulhas

Ela, menina... não pôde deixar de perceber a presença dele aquele dia. E em meio a tantas cores, em meio a tanta gente. Uma faísca acendeu em seus olhos naquele dia.

Ele, homem feito, não percebeu a presença dela alí. Não em meio a tantas cores, em meio a tantos rostos... não ainda.

A tal faísca manteve-se assim quieta simplesmente brilhando enquanto ela o ouvia falar . Enquanto se saciava daquelas palavras, e embora ela quisesse existir no mundo dele, teve medo.

Ele parecia tão real aos olhos dela, tão incrivelmente real... que ela tinha medo de não ser real o suficiente para entrar naquele mundo. De que acaso se atrevesse a dar um passo naquela direção tudo em si se diluiria. Corpo, voz, alma, olhos e ficasse de si só aquela faísca.

Mas ele a percebeu, algum tempo depois, ele a percebeu. Percebeu, antes dela, a faísca em seus olhos. Aquela faísca curiosa que pulsava e parecia um reflexo dele. Achou curioso que aquela menina tivesse nos olhos algo de si.

A faísca nos olhos da menina dançavam uma dança curiosa e ele se aproximou na esperança de ser tirado para dançar, de ser acolhido e compreendido. E houve muito tempo, e houve muita história. Até o dia em que a faísca transformou-se em fagulha nos olhos da menina.

O homem começou a parecer real, teve coragem de psst! segredo: Assumir suas falhas. O homem, foi além mostrou-se inteiro, despiu a alma e desvelou-se... menino! Menino cheio de medos, menino...

Para estar alí presente, a menina decidiu tornar-se mulher. Para cuidar do menino lindo que acendera uma luz no seus olhos. Para amar e cuidar...

E numa noite pouco depois da noite de São João, uma noite chuvosa... O menino e a mulher, a menina e o homem... todos se abraçaram e quase em sonho deixaram seus lábios se tocar... assim... se tocar... de uma forma tão sutil que qualquer palavra, qualquer ruído... seria capaz de desfazer aquele momento.

Depois daquele momento a fagulha se descontrolou dentro de menina-mulher e por muitas vezes ao longo de anos transformou-se em fogo em incêndio, em agonia... queimando a tudo e a todos ao seu redor, principalmente ele. E ela sentindo-se responsável por aquilo, ao longo desses anos derramava oceanos de lágrimas para apagar o fogo que a consumia.

Mas embora as chamas se apagassem , o fogo se extinguisse... sempre restava a fagulha. A fagulha nunca apagou. Essa fagulha tão denunciadora da menina, denunciadora da mulher...

O homem fez correr rios de lágrima pela face da menina , na esperança de apagar aquela fagulha. O menino fechou os olhos para não mais enxergar a fagulha nos olhos da mulher.Mas a fagulha já estava dentro dele embora o homem não quisesse admitir e o menino não percebesse.

A fagulha não se apagaria mais em nenhum dos dois. A fagulha cristalizou-se estrela nos olhos dela. E às vezes ela achava que podia ver o reflexo daquela estrela nos olhos dele também

presente

Bom, o que eu queria te dizer e que eu não sei se consegui é que eu não sou um presente!

Eu não quero ser um presente!

Sei que me torno ridícula...E é assim mesmo que me sinto tantas vezes...-risível-Ridícula!

Tudo em você se tornou especial para mim. O que vem de você toca o que há de mais verdadeiro em mim: de mais frágil, de mais pueril... Você não deveria se assustar quando me torno falante demais, irônica demais, agressiva mesmo... Alguém tem que me proteger de mim, dos meus sentidos (todos teus)... E eu aprendi que esse alguém sou eu mesma.

[texto de 2001]

você

Você é perigoso. Eu já sabia desde sempre . Você desperta carinho demais, admiração demais, desejo demais, paixão demais, amor demais.... demais...

Deus , quanto medo! Medo de te querer, medo de não querer , de te Ter , de não te Ter, medo de te perder sem ainda o haver conquistado. Se você olhava nos meus olhos e dizia: Não haveria de ser com qualquer outra ... e eu sabia (acho que eu sabia) que era mentira. Mentira sim porque você esteve com outra .

Teu olhar invadia minha alma, e você sempre soube disso... Tinha medo... mas queria...desejava, precisava, implorava por migalhas de tua atenção . Perdia as forças só de te pensar, deixava de ser responsável por meus atos e pensamentos.

De te ver mal cabia em mim...Tudo em você, tudo!

Você me olhou, me provocou , me desejou... ora, lógico que fugi, meu primeiro impulso era fugir. Eu era/sou uma menina, apenas uma menina. Uma criança perdida e confusa com tudo. Vê quanta coisa em jogo: amigos, auto estima, paixão, amor ou algo ainda mais sério: primeiro amor.

Confiança, alegria, dor... crescimento. Vê? Será que você vê isso? A escolha não era minha, era sua . Você que tinha opções e escolhas a fazer. Eu não as tinha. Estava sem saída...Voltava.

[Me acostumei com você sempre reclamando da vida. Me ferindo, me curando a ferida...]

taquicardia

Eu estou com medo. Estou apavorada, para dizer a verdade. Meu coração disparou há alguns minutos, taquicardia, minhas mãos estão geladas e trêmulas. Eu não consigo pensar direito, não consigo raciocinar, não consigo, não consigo... Estou numa paranóia frenética. Já senti isso antes. Algumas vezes, muitas vezes.

O coração encaixotado, esmagado por concreto... Meto as mãos por dentro da blusa e arrasto com dedos e unhas tudo o que possa estar causando essa sensação de opressão. Arranco pele e carne. Ardem um pouco, arranhões, ardem e sangram...Mas não adiantam. Talvez se fossem mais profundos... Mas não tenho forças, e nem coragem, para desencaixotá-lo do meu peito: remover músculos e ossos. Também, sei que não adiantaria, não é físico o que eu sinto, Olho pra trás e pros lados, paranóia, paranóia. A taquicardia continua... Mãos trêmulas, nem consigo escrever direito. Sinto que vou ser apunhalada a qualquer momento. Vou, numa esquiva às avessas, de encontro ao punhal. Quero sentir a doce dor do ferro frio me cortando a carne e adentrando meus músculos e órgãos. Sentir o jorro quente do meu próprio sangue derramado.Morrer devagar...

Não, a morte não me assusta...

Ainda taquicardia... Mas não é verdade. É tudo alucinação, paranóia... Paranóia.

Preciso de remédios e comprimidos, antidepressivos...

O mundo paralelo parece tão mais real.

" Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo?

É esse! É esse!

Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;

E então será dia.

Sorri, dormindo, minha alma!

Sorri, minha alma, será dia!"

Fernando Pessoa 7-11-1933

?????

Por que eu gosto tanto de você?

Para quê eu te amo tanto?

Por que teu abraço pode fazer tanta diferença na minha vida?

Para que serve ter tua confiança?

Por que quero o teu desejo?

De que me serviria o teu amor?

No que eles mudariam a minha vida?

... que diferença miraculosa essas coisas fariam na minha vida?

Será que é meu orgulho ?

que não permite que eu seja rejeitada?

pelo homem que eu desejo?

Se for orgulho então eu mereço sofrer!

Orgulho é um pecado terrível!

brincando com as palavras

Hoje teu cheiro invadiu a minha casa. E foi tão forte, tão nítido, tão... tão. Que parecia que você estava alí... do meu lado. Que tinha acabado de sair do banho. Ou então que tava me abraçando. E agora é como se eu estivesse ouvindo a tua voz me perguntando: ta sentindo falta da barba né? Você lembra disso?... Eu acho que não. Acho que tem tanta coisa boa que você esqueceu. Logo você... que sempre falou para lembrarmos só das coisas boas. Ontem eu te vi... Aqueles fios brancos despontando no negrume da tua barba. Talvez você nunca entenda a beleza disso.

Mas as tuas últimas palavras ainda ecoam em mim. Mais forte que o teu cheiro elas se repetem em ordem difusa e aleatória: já pensou que você talvez não queira eu? Não pensou que talvez você queira eu? Você não pensou que talvez eu já queira?

O dia em que eu morri

Hoje... hoje é o dia em que eu morri.

Calma não se assustem.Eu já havia tomado essa decisão havia algum tempo. na realidade, armei todo o enredo de minha própria morte. Eu me assassinei. O motivo? Simples: Eu amava demais a vida. Era muito apegada a ela.

Talvez vocês não entendam... mas é que o medo da morte me angustiava demais! Tanto que eu não podia mais agüentar. A cada sorriso que eu dava, a cada suspiro, o amor pela vida se apoderava de mim... e o pavor da morte crescia. Só havia uma forma de me ver livre daquela angústia toda:eu tinha que me assassinar.

Foi um crime premeditado. Assim: não cheguei realmente a refletir sobre o que estava fazendo . Só queria me ver livre daquele medo que a morte me dava. Só que eu me conheço muito bem, acabaria voltando atrás na última hora, então teria que deixar a coisa muito bem amarrada. Eu teria que me por numa situação onde ficasse impossível de voltar atrás.

É que eu sabia que quando chegasse na hora de morrer eu ia querer voltar atrás. Tinha que deixar a vida sem opções de me salvar. Não, nada de cortar os pulsos e correr o risco de que alguém me salvasse de última hora. Não, nada de pílulas para dormir, lavagem gástrica ainda por cima deve ser horrível...Já tinha chegado a uma decisão.Iria saltar lá de cima do farol. Cairia sobre as pedras e meu corpo ficaria perdido no mar. Uma fórmula sem saída. Depois de dado o estopim as conseqüências se desenrolariam...

Sempre soube que a vida podia continuar sem mim , embora eu nada pudesse sem a vida. E apesar de ela, a vida, nem sempre me tratar com delicadeza eu amava tudo nela... até mesmo aquele detalhezinho da orelha grudada que no início eu antipatizava. E mesmo conhecendo cada detalhe da vida até mesmo aquele sinal às costas dela... aquele que invadia os meus sonhos... ela sempre encontrava algo novo pra me surpreender. Sempre tinha algo novo.

E acho que , no fundo, eu esperava que a vida me surpreendesse de novo, que algum milagre acontecesse... que a vida não me deixasse ir.

O ar tinha o gosto das lágrimas que eu ainda derramaria por muito tempo... Lá de cima o mundo parecia magnífico. E a vida ainda mais deslumbrante. Nessa hora a olhei nos olhos e saltei...pois bem: "chutei o pau da barraca" e a queda me pareceu infinitamente demorada... uma eternidade. O arrependimento veio logo, antes mesmo de eu ter certeza que iria acabar me espatifando lá em baixo. Pedi a perdão a Deus pelo meu ato e fiquei esperando algum tipo de intervenção divina... pedi que um milagre me tirasse dali...me entregasse de volta aos braços da vida. Mas nada aconteceu.

O medo pelo menos tinha ido embora. Ao que parecia... tinha deixado de me assombrar, não me espreitava mais. Agora não adiantava de nada sentir medo (se é que o medo tinha adiantado de alguma coisa alguma vez). Tentei pensar no lado bom daquilo tudo; eu estava livre: o medo tinha ido embora! Mas foi só eu pensar nisso que uma caixa fechou-se ao meu redor. Uma densa caixa de madeira e comecei a me sentir sufocada. Só aí me dei conta que o meu medo se materializara ao meu redor.

E quando eu me espatifei lá embaixo nas pedras, enquanto sentia meus ossos estalando e meu corpo se deformando... enquanto a vida me deixava sem dar muitas explicações a caixa continuou lá inteira. Meu corpo sem vida, guardado dentro daquela caixa maciça de madeira e descobri uma coisa: depois da morte, pelo menos para nós suicidas, há dor. Muita dor.

Acho que deixei de ser gente depois que morri. Deixei de ser gente e virei dor.

Mil vezes

Uma trave cruzando minha garganta, um soluço mudo... um gole em sêco... E eu ali de pé... Olhos muito vermelhos, quase vidrados (cansados), queimando com a minha febre interna (meu fogo interno) e o rosto transfigurado...transfigurando-se em tantos outros rostos. Movimentos lentos e pesados. Meu espírito já não me pertence. Meu corpo não tem vida é só esse fogo, essa chama que ainda vivifica minh’alma e que grita por teu nome, que pulsa em teu nome e que é dor pura... é tanta dor e por tanto tempo que às vezes esqueço dela. Boca semi-aberta, os olhos semicerrados...

- Eu não te amo mais, não te amo... eu não te quero mais , não quero... você está livre para ir embora. Vá embora... Mas, vá embora mesmo, vá pra longe de mim, para fora de mim me devolve o meu vazio. Estou cansada, de viver no teu vazio.- Repito mais alto e mais forte. - Eu não te amo mais, não te amo... eu não te quero mais , não quero... você está livre para ir embora. Vá embora... Mas, vá embora mesmo, vá pra longe de mim, para fora de mim me devolve o meu vazio. Estou cansada, de viver no teu vazio.-

dizem que uma mentira repetida mil vezes vira verdade. Será que você me escuta? Só vejo o teu sorriso na minha frente, o teu sorriso e os teus olhos castanhos, muito castanhos, brilhando. Chispando, me chamando...

Tarde Demais

E quando você me olhar aí já vai ser tarde demais, eu já vou estar acreditando na minha invisibilidade, acreditando que eu nunca possui imagem ou identidade.

E quando você tentar me dirigir a palavra , aí eu não vou ouvir, e já vou ter esquecido de todas as conversas maravilhosas que tivemos e que se prolongavam por horas, o timbre da tua voz sussurrado e as palavras íntimas demais, tímidas demais para serem relembradas ou repetidas.

E quando tentar me tocar com carinho eu não vou sentir porque eu já vou ter revestido todo o meu corpo de uma armadura para me proteger de você. e teu cheiro vai ser uma memória distante, como o cheiro de jasmim da minha infância

E quando você vier a entender o quanto eu te amei aí já vai ser tarde porque o sentimento já vai ter secado, e vai estar tão maltratado... e eu vou ter escondido esse amor tão fundo dentro de mim que vou ter esquecido que ele existe.

E quando você me quiser, então eu não vou mais poder ser sua, porque já vai ter me sido imposto a escolha dolorosa, e eu vou ter escolhido por mim.

E quando você perceber não vai adiantar de nada. Eu já vou estar longe demais, perdida demais em minhas próprias escolhas. Apesar de insistir em algum lugar da minha alma a dor fantasma de uma parte qualquer que me foi amputada.

Tempestade

Às vezes te desconheço.

E quando isso acontece parece que o mar dos teus olhos, por onde tantas vezes já naveguei, se revoltam em tempestade em noite escura. Sinto , então, que ao mínimo descuido meu serei tragada e me afogarei em ti.

Roteiro: Sonhos recorrentes

Cena 1:
Externa/Dia/Praia qualquer
EU caminhando pela beira mar até o lugar certinho marcado para nos encontrarmos. O céu está muito azul apesar de não se registrar a presença do sol. Apenas o mar calmo a areia branca e a luz difusa.Deixo alí meus sapatos e minha bolsa.

Cena 2:
Interna/Dia/Edifício-Sala
Entro na construção de cimento, meio feiosa, um prédio daqueles baixinhos . Deve ter uns três andares e não tem elevador, parece que falta-lhe o acabamento. EU subo as escadas. Lá em cima alguns conhecidos diziam que VOCÊ espera por mim numa sala. É tudo muito sutil e extremamente real. Entro no cômodo onde VOCÊ me espera. Parece uma sala de cinema com uma tela enorme, mas estava vazia, não tem cadeiras nem tapetes nem nada. Nem ninguém... Só você e eu. Nós dois. Pela primeira vez sozinhos. Assim frente a frente. Não sinto medo nem apreensão nem nada disso. Apenas entro e sento ao teu lado. VOCÊ me beija. Sinto teu beijo. Beijo... teus lábios roçando nos meus e tudo se desenrolando numa cadencia quase musical, quase ensaiada. Uma cena que pode ser ensaiada milhares de vezes para existir com tamanha perfeição. E eu sinto que estou indo embora as coisas parecem menos reais te aviso, VOCÊ sorri pra mim. Sorri.
Alguém nos chamando: Roberta, a maré tá enchendo e tá levando tudo embora.Tuas coisas, rápido desce. Descemos os degraus rapidamente até chegarmos no térreo.

Cena 3:
Externa/Dia/praia
Do lado de fora o sol brilha como antes. Mas o mar está muito cheio. Quando saímos do prédio a água já está na altura de minha cintura, e a correnteza forte levara tudo embora: Meus sapatos e minha bolsa... estão sendo levados...levados... Peço tua ajuda pra tentar recuperá-los você está bem na metade do caminho, mas você não ouve... Percebo que não adianta pedir a tua ajuda EU tenho que mergulhar e resgatar minhas coisas. Mas fico apavorada. Mesmo estando descalça sinto medo de que o peso dos meus sapatos molhados façam com que eu afunde.

FADE

Cena 4:
Externa/dia/praia
Mesmo cenário, o céu infinitamente azul sem sinal de nuvens...não dá pra ver o sol mas é dia. Caminho sozinha o mar está agitado, não sei exatamente pra onde vou.Mas nada que pareça representar perigo. Caminho no sentido sul e as ondas começam a chegar cada vez mais perto de mim. Acho gostoso molhar os pés naquela água morna e continuo caminhando relaxada. Uma onda enorme, entretanto , vem e me joga no chão com uma força grande. Perco o equilíbrio e sou arrastada para dentro do mar. Tento sair de lá inúmeras vezes, algumas tentativas tem sucesso , mas tão logo começo a caminhar à margem do mar sou novamente abatida e "capturada" por uma nova onda.

Cena 5:
Externa/dia/praia
Caminho em algo parecido com um deck de praia. A água está muito calma. Parece ser água doce. Caminho junto com uma colega de faculdade o céu continua infinitamente azul. Não estou incomodada, mas parece que estou meio perdida. Era pra EU estar em algum outro lugar. Converso com minha amiga, que embora esteja comigo não está perdida, ela não sabe me ensinar o caminho correto para que eu chegue ao meu destino. É quando avisto ELE dentro da água. Chamo, grito, aceno.... não preciso fazer muito esforço ELE me reconhece logo.
Ele chega junto ao deck onde estou e eu pergunto a ELE como faço pra chegar onde eu quero. ELE diz para eu não me preocupar, que ele me leva , desde que EU entre na água e ajude ELE num mergulho que ele tem que dar. Nem êxito, entro na água. Fazemos o tal mergulho juntos, de mãos dadas, e não largamos mais as mãos. Quando emergimos do mergulho saímos da água calmamente, sempre de mãos dadas , nos despedimos da minha amiga e ELE me leva para onde quero ir.

FADE OUT.

Fool

Dessa vez ele não quis saber e continuou andando. Não queria saber de nada, de mais nada. Não estava acostumado àquilo, mas era necessário. Decidiu, e é assim que deveria ser. Não queria ter hora pra voltar. A noite estava agradável e dessa vez iria deixar que a vida o guiasse.

Ouvia uma música em algum lugar dentro de si e iria dançar a noite toda. Dançar sozinho mesmo, pelas ruas de paralelepípedo, numa alusão seca aos antigos musicais. Feliz consigo mesmo. Aquela noite libertou a si mesmo e libertou também, pedaços de sua vida, que por muito tempo acreditara que fossem sua vida inteira. Não, a intenção não era deixar ninguém nem nada pra trás. A intenção era seguir em frente dançando... rodopiando, pulando ... com um sorriso bobo no rosto.

Seu sorriso e sua atitude de peito aberto à vida convidava a todos para aquela aventura. Gritava a plenos pulmões convocando a vizinhança toda para aquela algazarra!!

Luzes acendiam-se nos prédios, alguns desceram e juntaram-se à sua festa depois, cada um seguiu seu caminho. Cada um com sua própria festa interior. Outros gritavam impropérios de sua varandas e janelas, esbravejavam e fechavam as janelas. Mas não importavam os gritos! Nada conseguia abafar a música que ouvia e que vinha de dentro! O coração ao saltos, dando cambalhotas exaltadas. E seguiu pela rua de paralelepípedos como a carta número zero do tarô: o bobo. Olhos vendados... seguiu o seu coração.

A tempestade

A tempestade se dissipara. As nuvens negras e carregadas que antes despencaram do céu em enxurrada e ventania... Abalando estruturas que sempre, eu sempre acho, deveriam ser mais sólidas. Lavando a alma, os caminhos de terra, o asfalto e o cimento das construções. Afogando algumas plantas e animais pequenos ou frágeis demais para resistir ao dilúvio. Alguns poucos animais e plantas resistiram. Alguns deles se debateram muito na água até ensaiar alguns movimentos que os mantiveram na superfície.

Entretanto, como ia dizendo, as nuvens se dissiparam. Agora o sol se levantara imponente e desfazia as últimas poças d´água que restavam no solo ou em alguns outros lugares. O vento também tinha ido embora. Estava quente, úmido e abafado... e mesmo assim a vida se fazia presente. Talvez um pouco cansada de tanta luta, de tantas perdas... mas capaz de começar uma nova jornada. Uma nova jornada onde o caminho seria feito de velhos acertos e novos erros.

Vida Chata

Levava uma vida pacata, alguns diriam... Ele dizia: Vida Chata!

Trabalhava muito e ganhava pouco... Tinha pouco tempo para o lazer, para dizer a verdade não sabia exatamente o que era lazer. Não tinha amigos, nunca os tivera nem quando jovem...

Na sétima série, um rapaz da sua idade costumava sentar-se perto dele no colégio, passava a maior parte do tempo calado, mas de vez em quando fazia algum comentário sobre a aula... Sobre a menina do diadema azul que sentava lá na frente e era linda! Ou sobre a professora com uma verruga na pálpebra que parecia uma barata.

Ele tinha sido o mais próximo de um amigo em toda a sua vida. Qual era mesmo o nome do menino?

Abrigou-se do sol em baixo da árvore do quintal, não sabia exatamente que espécie de árvore era nem há quanto tempo estava ali.Mas não parou para admirá-la.

Seus pais eram rigorosos e frios, não lembrava de ter sido tocado por eles.Não lembrava de como era sentir a pele deles... Nem se quer tinha levado uma surra... E talvez por isso nunca tenha sido muito afeito a contatos físicos.

Nunca tivera um bichinho de estimação embora fosse louco por cachorros."Faz muita sujeira, dá muito trabalho", sua mãe dizia. E mesmo agora, que morava sozinho, e era adulto não tinha coragem de ter um.

Ainda aquela noite resolveu ir até a varanda admirar as estrelas, era louco por estrelas, e em noite de lua nova, como aquela elas pareciam ser em maior número e mais brilhantes também. Podia reconhecer algumas constelações, via júpiter e até saturno no céu... Mas os galhos daquela árvore não deixavam que ele tivesse uma perfeita visão do céu...

No dia seguinte, de manhãzinha, ao sair pra trabalhar, sentiu um perfume delicioso de flores... Mas não parou para senti-lo.

Trabalhava num escritório de contabilidade. Não tinha contato com muitas pessoas, escolhera isso. Embora muitas vezes se sentisse sufocado com tanto espaço.

Chegou ainda mais uma vez em casa e dessa vez tropeçou em alguma coisa tentou se equilibrar, mas acabou se espatifando no chão... Pasta para um lado, óculos para o outro... Ouviu uns risinhos atrás de si não se virou para ver de quem eram. Sentiu raiva, olhou para o chão... O lugar onde o cimento cedia deixando a calçada irregular: Podia perceber a profundidade das raízes daquela árvore...

Apanhou a pasta e os óculos. Esfregou o joelho com força, tinha se machucado um pouco, rasgado à calça... Olhou ainda mais uma vez para aquela árvore. Ia ter que tomar uma atitude.

Entrou em casa e poucos minutos depois estava de volta a calçada, rosto molhado de suor pelo esforço...Com uma picareta nas mãos queria acabar com aquela calçada que sufocava as raízes da pobre árvore.

Na entrada de casa deparou-se com aquela árvore enorme.

duas

Sei que tenho uma forma peculiar de escrever... não sei se isso é bom para os leitores... nem mesmo pra mim. Me dispo, me mostro nua demais , crua demais... mas enfim sou eu. São meus sonhos, medos e desejos ... sou eu!

Essa eu que às vezes nem sei quem sou. Essa eu que fica perdida dentro de mim.

Às vezes me sinto como se eu fosse duas. E que entre essas duas eu houvesse um imenso abismo. O engraçado é que essas duas que eu sou não são duas metades , são duas inteiras.

Duas inteiras com personalidades bem distintas. Se uma eu quer pensar sempre nos outros, a outra eu pensa: que se danem! Se uma eu quer mais é ficar só a outra eu é tão carente... Se uma eu é auto-suficiente outra precisa de alguém que lhe estenda a mão. Se uma eu é tão forte segura e inteligente a outra pffff...

Duas eu tão distintas...

Juro que não me reconheço muitas vezes... acho engraçado quando recebo elogios... fico envergonhada. Ë bom, lógico que é. Mas fico tentando achar o momento em que eu pareci tão inteligente ou tão boa... Sinceramente nunca consigo achá-los. E fico sempre me perguntando qual foi o instante mágico que eu cativei mais um amigo... A gente devia perceber esses momentos. O instante exato em que passamos a fazer parte de um outro alguém.

Acho que uma das duas eu mantém a outra meio desinformada.

Dharma

Caem lá de cima do céu alucinadas! Todas elas...

Formam-se e caem alucinadas deixando-se levar ao sabor do vento... Prá lá e prá cá,

Como numa coreografia.

Dançando através de tão curta existência...Perseguindo o momentum, vivendo-o.

As gotas de chuva.

Cada uma delas.

Não importa o que venha pela frente.

Uma parede de cimento,

Um telhado de barro, ou de zinco...

Continuam caindo e dançando deslizando pelo céu com a suavidade ou a fúria que possuem em sua natureza.

Não importa se vão encontrar o tecido preto de um guarda-chuva pela frente... Ou se será o rosto de uma criança... ou o negrume do asfalto.

Só importa o que têm que fazer...

Sabem, que no fim chegarão aos seus destinos.

Se unirão com suas gotas-irmãs e renunciando a si mesmas viverão em algo maior, por algo maior...

O mar.

Escrever

Eu quero escrever. Quero escrever um grande tratado de amor e de amizade; de ódio e desrespeito. Uma Ode a felicidade, um cântico a melancolia. Um epopéia sobre a vida. A vida cotidiana: Do acordar ao deitar... do nascer ao morrer.

Falando de coisa simples, sem muita pompa. Falando de coisas que às vezes dão até raiva. Como acordar cedo e ir caminhando até a parada de ônibus. Como sentar à janela do ônibus e observar... observar as pessoas andando e imaginar coisas sobre cada um. Como será que cada um fala, se lava primeiro a cabeça ou a barriga, se geme muito alto quando faz amor... Quem será que amam, quantos será que odeiam.

Falar sobre toda a gente, abordar suas dores suas mágoas seus traumas. Falar de suas tramas , seus medos, seus desejos...

Abordando toda a humanidade. Desde o menino que está na esquina vendendo jornal até o médico que está no banheiro lendo o jornal. Entender a mulher que chegou do escritório e espera o marido para jantar, explicar a garota que acabou de ser jantada pelo marido de alguém.

Quero descrever a enorme ironia do destino, tentar traduzir a alma humana para bom português.

Quero mais! Quero falar de grandes estórias de amor, grandes mentes, grandes lutas humanitárias e grandes inventores. Quero falar dos assassinos e traficantes , dos chefes de estado. Dos heróis e dos frustrados.

Quero jogar com as palavras e através delas brincar de Deus, construir mundos inteiros para expurgar o demônio que há em mim.

Quero criar super-humanos de saúde e vida perfeitas cercados de dádivas por todos os lados, orgulhosos e ignorantes de Deus, quero criar sub-humanos vivendo em condições miseráveis, pobres coitados cheios de fé e que conseguem de alguma forma entender e alcançar a felicidade.

Um romance belíssimo sobre o dia-a-dia. Uma trilogia sobre os aromas e gostos cotidianos. Uma epopéia sobre a vida.

Equilibrio


A palavra de hoje é: equilíbrio. No mundo tudo foi criado em harmonia certo? Formas "opostas" que se juntam para se completar, se equilibrar.

Existem o nascimento e a morte;juventude e velhice; homem e mulher; felicidade e tristeza; euforia e melancolia; prazer e dor. Por mais que a essa dicotomia nos limita como seres, que só o equilíbrio entre as metades pode nos levar além, Os opostos não deixam de existir. Muito além de existirem os opostos precisam um do outro para existir: Ying x Yang; som x silêncio...

Nós muitas vezes precisamos lidar com o nosso extremo oposto para existir em maior equilíbrio. Tipo: +1-1 =0.

Foi pensando nessas doidices que eu encontrei uma enorme falha nos meus ideais de construção de mundo.

Acredito que existe um Deus, mas nunca creditei no diabo.

Nunca acreditei que existisse no mundo um puro exemplo do bom, ou um puro exemplo do mal. Por pior que seja alguém, ou uma situação, existe algo de bom nele. E o contrário também: por melhor que seja alguém, ou uma situação, existe algo de mau nela. Todos temos uma pitada de antagonismo.

Pois bem, a minha falha está em acreditar em Deus, na bondade personificada e não acreditar no diabo, a personificação do mal. Para um existir é necessário que haja o outro. Obrigatoriamente. E daí? Daí que agora eu tenho que decidir entre não acreditar em Deus ou acreditar no diabo.

Menina Bonita

Foi uma criança linda por dentro e por fora. Uma criança que sorria e que brincava, brincava... mas que ouviu tantas vezes que era má que começou a acreditar.

Cresceu e tornou-se uma moça muito bonita por dentro e por fora, mas já não acreditava tanto na sua beleza, se tolhia se julgava e sempre que tinha uma atitude que alguém considerava má, se trancava no banheiro e sentada no chão chorava de soluçar.

Conheceu alguns rapazes, igualmente lindos e entregou-se a eles com tudo o que tinha. Uns correspondiam com entrega igual, tinha uns que a amavam tanto que queriam se tornar parte dela, outros nem tanto...

Mas ela viveu histórias bonitas. Histórias de "Tanto Amor". Magôou alguns desses amores e acabou sendo magoada por tantos outros. Mas sempre, mesmo magoada, mesmo que acusasse e berrasse e gritasse ecoava dentro dela aquelas palavras "menina má". E ela continuava se trancando no banheiro para chorar de mansinho.

E esse eco, era tão alto dentro dela que ela deixou de acreditar que era bonita, e que merecia ser feliz.

Ela se tornou uma adulta com medo de conhecer e magoar, com medo de amar e doer. Uma mulher ainda muito linda, com um jeito um tanto fugidio. Não acha que mereça amor, embora queira muito amar e ser amada. Sempre tem algo errado: o outro é bom demais e não merece sofrer por sua causa ou...ou... Sempre fica calada e geralmente, quanto sente muita alegria dentro de si morde os lábios com força até sentir um filete de sangue escorrer. E às vezes nem se dá conta de que nessas horas o eco continua lá, dizendo: "menina má!"