terça-feira, outubro 31, 2006

vida

Engraçado...
ainda hoje postei uma mensagem falando do adeus. Mas é o ciclo piegas e repetitivo da vida.
Apenas ele. Estou dizendo isso não por insensibilidade. A saudade fica é claro.
Mas recebi ainda agora um telefonema dizendo que o novo bebê que está para entrar na família é uma menina.E por um instante esqueci a saudade... ficou a euforia a alegria pelo novo.

É em homenagem a essa nova vida que posto aqui um trecho de "Morte e Vida Severina" de João Cabral de Melo Neto

Morte e Vida Severina


De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.

De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.

Sua formosura
deixai-me que cante:
é um menino guenzo
como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem
já bate nele, incessante.

Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas
nas suas já adivinha.

De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.

De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avelós
contra o Agreste de cinza.

De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como a palmatória
na caatinga sem saliva.

De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.

É tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
Belo porque é uma porta
abrindo-se me muitas saídas.
Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
É tão belo como as ondas
em sua adição infinita.

Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

E belo porque com o novo
todo o velho contagia.
Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.

Júlia, seja muito bem vinda á família.

Um Adeus...

recebi essa mensagem do filho de um grande amigo do meu pai. Como o próprio costuma dizer amigo-irmao. Esse e-mail foi endereçado ao meu pai. O sonho desse amigo-irmao-poeta era ter seu livro publicado o que infelizmente nao foi possivel fazer. Quanto a poesia que se segue trata-se de um pedido de meu pai a esse amigo-irmao.


Meu pai desejara lhe ofertar esta homenagem ainda em vida, mas infelizmente ele nos deixou prematuramente.
Certo dia papai esteve aqui em casa e me pediu que preparasse uma via desta poesia (que faz parte do livro), pois intencionava lhe entregar.
Não conseguimos realizar esse sonho de meu pai em tempo e essa raiz de tristeza levarei em meu coração e alma pelo resto de meus dias.
Nesta folha que hoje está comigo, ele fez pequenas alterações na poesia anterior e, de punho, te escreveu: "Amigo, as correções, além de desnecessárias, já fazem parte do meu "demorado" livro. Ivan."
Ivson.
*************

EPITÁFIO PARA ROBERTO

Ao amigo Roberto .

Linhas que não gostaria de escrever

Embora encomendadas tenhas pedido

É que não me passa pelo sentido

A possibilidade triste de acontecer

Um dia ler teu nome num jazigo

E a razão negando-se entender

Porque perdemos um grande amigo!

Prefiro homenagear reminiscências

Lembrar de um passado...ainda crianças

Quando essa forte amizade começou...

Constituída de aventuras e confidências

Mesclada de sonhos, de esperanças

Que a doce infância retratou

Reveladas no álbum das lembranças

Que a voragem dos anos não apagou...

São marcas vividas e sentidas

Gravadas nos olhos da recordação

Laços que nos levam através da vida

Tratarmo-nos como irmãos

Linguagem somente traduzida

Na leitura universal do coração

Falando do jovem valente destemido

Que acompanhei durante a mocidade

Correto, leal e decidido

Em defesa da igualdade

Juiz neutro sem tomar partidos

Se o ajuste fosse entre conhecidos

Para não trair a sua fidelidade

Sensível também o vi chorando

No enterro improvisado num matagal

Onde sequer ficou faltando

Flores e velas daquele funeral

Adeus que entre soluços e rezando

Demos a Dick um cão muito especial

Pouco a pouco o tempo foi passando

E com ele pra longe carregando

Pueris brincadeiras de meninada

Saudosos, ainda hoje relembramos

Os momentos felizes que deixamos

Plantados lá na Vila da Encruzilhada...

Outros propósitos foram florescendo

Nos afastando e nos amadurecendo

Novos desafios das nossas jornadas

Na maturidade a adolescência se retira

Dando lugar a uma força que transpira

No suor da luta a responsabilidade

Atingindo metas e objetivos que previra

Iluminado horizonte onde se refletira

Anseios do homem pela própria liberdade

Assim, aliando o amor trazido por Valmira

Edificastes um lar e a tua felicidade...

Fazendo do coração uma porta aberta

Ampla passagem de um seguro abrigo

Por onde entraram Gustavo e Rodrigo

E depois o meigo sorriso de Roberta

Tesouros conquistados...sonho antigo

Que realiza, enobrece e te completa!

Mantendo vivos da cabeça aos pés

Traços herdados de Adelina e Melinho

Divididos com Haroldo e Heraclinho

Com Cláudio, Lúcia, Nelson e Nazareth

São rastros seguidos no caminho

São pegadas conduzindo ao que tu és...

Porém se um amanhã irrevogável

Segundo a lei do fim...inevitável

Te embalar primeiro no sono eterno

Contrito me tornarei responsável

Por tudo que dirá inconsolável

Teu epitáfio contido neste caderno...

"Jaz aqui quem nunca morreu

posto que não morre quem viveu

cultivando amigos com sinceridade

além de canteiro onde floresceu

sementes de companheirismo e lealdade

jamais morrerá de fato para os seus

apenas se esvai...vira saudade!"

04/96

I.Amilcar.